A prática de cortar medicamentos é correta?

Atualizado: 19 de Ago de 2019


Você já cortou um comprimido ao meio? Se não, com certeza tem um parente ou amigo mais próximo que realiza essa prática com a ideia de tomar “meia dose”. Existem também aquelas pessoas que esmagam o medicamento ou até abrem as cápsulas pensando em facilitar a ingestão. A intenção é sempre boa, mas pode agravar o seu estado de saúde pois não está seguindo corretamente o tratamento.

Essa prática é comum para ajustar a dose de medicamentos, quando o paciente necessita de uma dosagem menor do que as que se encontram disponíveis no mercado, ou quando, é necessário aumentar ou diminuir gradualmente um medicamento, como por exemplo nos tratamentos para dislipidemias, hipertensão, entre outras. Essa prática também é utilizada em casos para facilitar a deglutição de idosos e crianças ou em pacientes com limitações para engolir . Porém, algumas vezes a partição de comprimidos ocorre de forma equivocada, pesquisas demonstram que um em cada quatro comprimidos prescritos são divididos em ambiente ambulatorial, 40% dos pacientes que partiram comprimidos acreditam que todos os comprimidos podem ser divididos e 57% dos participantes dividiram os comprimidos quando consideravam grandes ou difíceis de engolir.

Avaliando o aspecto econômico no acesso aos medicamentos, tem-se como exemplo os planos de saúde dos Estados Unidos, que exigem a aquisição de medicamentos em dosagem maiores por serem mais econômicas, somente em casos que não tem opções no mercado que é liberada a compra de fármacos com apresentações em pequenas doses. Contudo, estudos demonstram que a divisão de comprimidos não é uma estratégia interessante visando a redução de custos, já que cada grupo de paciente tem suas limitações. Um exemplo de situação dessas limitações é com os idosos, que em sua maioria, apresentam problemas de visão e coordenação motora comprometida que podem interferir na prática precisa de cortar um comprimido.

De acordo com a farmacêutica Flávia Gomes "por mais que possa parecer inofensiva, dividir comprimidos é uma prática que se popularizou, porém não existe nenhuma norma brasileira que garante que a dosagem esteja correta quando se realiza esse procedimento. Diversos são os agravos que podem ocorrer mediante essa prática, que vai desde a intoxicação pelo fármaco a perda da ação do medicamento."

Quando um comprimido é partido, pode ocorrer fatores que aceleram a degradação e oxidação do princípio ativo do medicamento devido a incorporação de umidade e exposição à luz solar, podendo também acarretar na perda de pó do comprimido e esmagamento das metades, comprometendo assim a ação fármaco, uma vez que durante o processo de fabricação é realizado estudos de estabilidade no comprimido inteiro. Do mesmo modo, a divisão em partes iguais é muitas vezes difícil, podendo resultar no esfarelamento do comprimido, além de comprometer a administração da dose correta e, portanto, a eficácia e segurança do tratamento.

Limitações adicionais referem-se ao tipo de liberação das formas farmacêuticas sólidas orais disponíveis no mercado, algumas possuem liberação gradual do fármaco no organismo, elas são identificadas por siglas que acompanham o nome comercial dos produtos na embalagem, como ER, XR, XL (= Extended Release), AP (= Ação Prolongada), etc. Esses comprimidos quando violados ocorrem uma liberação rápida do fármaco aumentando assim sua dose disponível em curto tempo, ou seja, um fármaco que deveria agir ao longo de 12 horas é todo liberado de uma só vez, expondo o usuário aos riscos de superdosagem. O revestimento desses produtos evita a dissolução no estômago, retardando-a até que a forma sólida alcance o órgão alvo. Uma das exceções é o Donaren Retard 150mg, comprimido de liberação prolongada que contém o antidepressivo trazodona e possui sulcos, que de acordo com a bula do medicamento permite que este seja dividido em três partes, pois pacientes idosos sugere-se uma dose única de 100 mg ao dia, ou seja, repartir 1 comprimido em 3 partes iguais e tomar 2 partes, por via oral. A dose pode ser aumentada, conforme prescrição médica, dependendo da resposta clínica. Mesmo nesse caso, o usuário deve ser orientado a não esmagar o comprimido.


FATORES QUE INFLUENCIAM A PRECISÃO DO PROCESSO DE PARTIÇÃO


A estrutura do comprimido, no que se refere à sua forma física e funcionalidade, a ausência de revestimento e a presença de uma marcação para partição favorecem uma partição mais precisa. Entretanto nem todos os compridos que cotem um sulco (marcação) podem ser partidos. Está comprovado que o impacto da partição pode acarretar mudanças de dosagem e peso, isso porque ocorre fragmentação e desintegração de comprimidos comprometendo assim o tratamento do paciente e sua saúde. Tal ato, possui maior risco quando o fármaco possui uma faixa terapêutica baixa, em que pequenas doses são necessárias para produzir seu efeito, como é o caso da Digoxina e Varfarina. Em estudo os comprimidos sulcados mostraram menores variações de peso e uniformidade de conteúdo após a partição em relação aos comprimidos não sulcados. Entretanto, essa relação não é observada para todos os comprimidos marcados, estudo de Stimpel e sua equipe concluíram que a maioria dos comprimidos para hipertensão partidos, não rompeu uniformemente, apesar de serem sulcados.

Inicialmente, os sulcos nos comprimidos foram uma inovação para aumentar sua resistência mecânica. Em seguida, esse modelo passou a ser usado também por razões estéticas. O conceito de que o sulco significa que pode partir o comprimido não procede, em particular em países sem legislação específica. Uma pesquisa mostrou que vários laboratórios no Brasil fabricam comprimidos sulcados sem fornecer qualquer garantia sobre sua partição. Vários até mesmo não recomendam essa prática, declarando que a presença de sulco em seus comprimidos deve-se aos ajustes das máquinas de fabricação, e que somente são realizados testes de estabilidade com os comprimidos inteiros, assim impossibilitando afirmar a efetividade e a segurança do procedimento de partição.


Outro aspecto que é relevante e deve ser levado em consideração, é a habilidade do usuário para efetuar adequadamente a divisão, particularmente, em se tratando de uma pessoa idosa como já citado anteriormente, com eventuais problemas motores e/ou visuais. O idoso ainda pode utilizar vários medicamentos em um mesmo horário e, portanto, para que não ocorram erros na utilização com consequências adversas para o paciente o mesmo deve ter discernimento para qual medicamento deve ser ou não partido.

Um fator importante apresentado em um estudo foi que ao utilizar o aparelho cortador, há risco de ferimento por corte para a pessoa que está manipulando o instrumento, indicando que seu manuseio requer atenção e habilidade no procedimento de colocar o comprimido e/ou fazer a limpeza interna do aparelho, levando em consideração que a lâmina é bastante afiada, por esta razão a escolha deste aparelho para dividir os comprimidos precisa ser avaliada com critério.

TÉCNICAS UTILIZADAS NA PARTIÇÃO DE COMPRIMIDOS


Os comprimidos normalmente são divididos com faca, com as mãos ou com cortador de comprimidos. Vários fatores podem influenciar o processo de partição, como a habilidade do indivíduo, se possui experiência em partição ou não, acuidade visual, agilidade, força nas mãos e função cognitiva, além das características do comprimido, se são favoráveis ou não à partição.

O cortador de comprimidos é um dispositivo que contém uma lâmina de aço inoxidável que serve para dividir em duas ou quatro partes iguais. O modelo mais comum no mercado é formado por uma base superior que se articula com a inferior, onde é colocado o comprimido a ser partido. A pressão da base superior, que contém a lâmina, resulta na partição. Os cortadores podem acompanhar compartimento para armazenar comprimidos e acessório. Veja ilustração abaixo:


Um estudo mostrou que a partição manual provoca maiores irregularidades no corte quando comparadas com a utilização do partidor ou navalha. Em outro estudo cinco voluntários dividiram oito comprimidos de diferentes tamanhos e formas, usando um partidor, tesoura para comprimidos não sulcados, mãos para comprimidos sulcados e faca de cozinha. Os resultados mostraram que uso do partidor forneceu maior precisão. Vale a pena ressaltar que apesar da comercialização de tal dispositivo, não há nenhuma legislação brasileira que assegura tal procedimento.


NORMAS REGULATÓRIAS ENVOLVENDO A PARTIÇÃO DE COMPRIMIDOS


As agências regulatórias de saúde dos países da América do Sul não possuem qualquer norma publicada que aborde a partição de comprimidos. A Anvisa possui algumas recomendações superficiais sobre o tema em seu site, supondo, sem embasamento científico, que a prática da partição de comprimidos não é comum entre os profissionais de saúde.

Entre as agências sanitárias, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, é a única a apresentar normas que tratam a partição de comprimidos. A FDA, além de fornecer instruções para orientar a partição, também estabelece normas e controles de qualidade para regular o processo de fabricação de comprimidos que possam ser submetidos ao processo de partição. A agência delega ao profissional de saúde a responsabilidade de decidir sobre a partição em determinadas situações, inclusive quando não há recomendação do fabricante. Contudo, estabelece algumas instruções para nortear esses profissionais e os pacientes acerca da melhor maneira de realizar o fracionamento de comprimidos.

Uma recomendação importante relata sobre o armazenamento das frações partidas, locais úmidos, como o armário do banheiro, devem ser evitados. Outra advertência simples e valiosa diz respeito à realização da partição de um comprimido por vez. Quanto à forma de realizar a partição, a FDA recomenda avaliar as características de tamanho e formato de cada comprimido, e reconhece que o uso de partidor de comprimidos é uma forma frequente de realizar esse fracionamento.

É fato que uma das contribuições mais valiosa da regulação estabelecida pela FDA seja a aplicação do sulco funcional. A definição de “sulco funcional” é uma espécie de selo de qualidade que indica que o laboratório testou a capacidade de seu produto de originar subdivisões uniformes aceitáveis, seguindo critérios de qualidade conforme a norma. Hoje em dia, nos Estados Unidos, apenas os fabricantes que atendam às recomendações dessa norma e aos ensaios farmacêuticos, podem produzir comprimidos sulcados. Comprimidos que não atendam a esses critérios não poderão apresentar sulcos, como no caso de comprimidos com tecnologia de liberação modificada que dependem da integridade do comprimido para o seu correto funcionamento.

CONSIDERAÇÕES

É notório que há urgência em estabelecerem normas regulatórias como medida de tornar a partição de comprimidos uma prática controlada, oferecendo um mínimo de segurança para os usuários de medicamentos. Todavia, a legislação sanitária brasileira atual não contempla de forma clara essa temática. Alternativas como, medidas para incentivar às indústrias farmacêuticas fabricarem medicamentos em faixas de dosagens mais amplas e em formas farmacêuticas variadas, poderiam diminuir a necessidade de fracionamento dos comprimidos.

A regulamentação dos Estados Unidos, mesmo que de forma ainda sutil, possui especificações mínimas de fabricação e controle para os comprimidos vendidos que é permitida a partição. A implantação do sulco funcional representa também uma inovação importante para assegurar essa prática, ainda que não fique isenta de riscos. O assunto abordado neste artigo possui grande relevância e é bem abrangente para continuar sendo inexplorado pelas agências sanitárias. É de extrema importância que seja definido normas para assegurar a correta utilização e fabricação de comprimidos que poderão ser partidos.

É impossível ainda proibir a partição de comprimidos, mesmo sendo inapropriado e indesejável, é um procedimento às vezes inevitável para seguir algumas posologias definidas nos protocolos. Portanto, toda vez que esse procedimento for prescrito, o paciente deverá ter entendimento adequado do processo de partir os comprimidos, ação importante da Atenção Farmacêutica, para não prejudicar o tratamento. Desse modo também, as orientações sobre como armazenar o medicamento após partição que serão utilizados mais tarde, devem ser instruídas pelo farmacêutico, levando em consideração que o laboratório efetua os testes de estabilidade apenas para o comprimido íntegro, e estas porções dos comprimidos são aquelas que estarão mais sujeitas a atritos e degradações pela exposição da massa do comprimido.

Optar por partir os comprimidos exige cuidados, é sempre mais seguro procurar a assistência farmacêutica em que será analisado vários pontos desse processo, como; verificar a bula do medicamento antes da partição, analisar habilidade do usuário para compreender e efetuar corretamente o esquema terapêutico, orientar o uso de cortadores de comprimido para maior precisão na hora do corte, instruir o manuseio desses dispositivos e a correta prática de armazenamento dos comprimidos partidos. Obtendo assim um tratamento seguro e eficaz quando a partição for a opção de escolha.


Fernanda Afonso | Farmacêutica Clínica | Consultora administrativa e implantação


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